sábado, 22 de setembro de 2012

O papel da mulher no teatro lorquiano



"Deixaria neste livro/ toda a minha alma./
Este livro que viu/ as paisagens comigo/ e viveu horas santas.
Que pena dos livros/ que nos enchem as mãos/ de rosas e de estrelas e lentamente passam! (...)" 

     Este belo poema de Garcia Lorca chama-se "Prólogo" e foi traduzido por William Agel de Melo.


    O poeta Federico García Lorca nasceu na região de Granada, na Espanha, e levou para sua poesia muito da paisagem e dos costumes de sua terra natal.

    Estudou direito e letras na Universidade de Granada. Seu primeiro livro foi publicado em 1918, com o título "Impressões e Paisagens". No ano seguinte, Garcia Lorca mudou-se para Madri, onde viveu até 1928. Em Madri tornou-se amigo de vários artistas, como Luis Bu?uel, Salvador Dali e Pedro Salinas. Em 1920 estreou no teatro, com a peça "O Malefício da Mariposa", e em 1921 publicou "Livro de Poemas".

  García Lorca viveu dois anos em Nova York. De volta à Espanha, em 1931, criou a companhia teatral "La Barraca", que passou a se apresentar por todo país encenando autores clássicos espanhóis, como Lope de Vega e Cervantes. Tornou-se também um grande dramaturgo, e criou peças que ficaram conhecidas no mundo inteiro. Entre suas obras mais encenadas estão "Bodas de Sangue", "Yerma" e "A Casa de Bernarda Alba".

   Como poeta, Lorca publicou mais de uma dezena de livros, entre eles "Romance Cigano", "Poeta em Nova York", "Seis Poemas Galegos" e "Cantares Populares". A poesia de Garcia Lorca é simples e direta, e seu estilo doce e comovente tem encantado gerações de leitores. Sua poesia tocante também registrou o modo de viver das pessoas mais simples e buscou resistir contra todo tipo de opressão.

   Em 1936, ano da eclosão da Guerra Civil Espanhola, Federico García Lorca foi preso. Fuzilado por militantes franquistas, tornou-se símbolo da vítima dos regimes totalitários.

Fonte:   




O teatro de Lorca é considerado o mais importante trabalho escrito em castelhano durante o século XX. Sua obra possui similitudes com os três grandes representantes do Século de Ouro do teatro espanhol: Lope da Vega, Calderón de La Barca y Tirso de Molina, cujas obras retratam o ambiente campesino. Suas principais tragédias rurais: Bodas de sangre (1933), Yerma (1934), Doña Rosita La soltera (1935) apresentam traços inovadores. Além de que, as protagonistas são mulheres e os dramas refletem tradições. Em suas obras, Lorca enfatiza o papel social da mulher, inserida em uma sociedade conservadora e o faz através de símbolos, metáforas, conotações emotivas e sensoriais. Neste trabalho, buscaremos identificar na obra de Yerma (Lorca, 1934) a relação que o autor estabelece entre o papel da mulher na sociedade e seus conflitos com a natureza.  A personagem será analisada como parte de uma conjuntura social onde a fertilidade da natureza contrasta com sua tragédia pessoal: a infertilidade. Yerma, a personagem, traz em sua alcunha, marca de uma simbologia evidente na história. O autor, nesta peça, combina a religiosidade pagã, a tradição do teatro clássico espanhol, a antiga tragédia grega, a tradição bíblica e uma série de símbolos da natureza como principio gerador de vida.

Trabalho completo apresentado no XII Encontro Baiano dos Estudantes de Letras: Letras, Arte, Cultura: Diferenças que igualam as bahias da Bahia.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Intensamente Frida!



                       

       Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderon foi uma das personagens mais marcantes da história do México. Patriota declarada, comunista e revolucionária Frida Kahlo, como ficou conhecida, teve uma vida de superações e sofrimentos que refletidos em sua obra a tornaram uma das maiores pintoras do século.
        Nascida em 6 de julho de 1907 em Coyoacan, México, filha do famoso fotógrafo judeu-alemão Guillermo Kahlo e de Matilde Calderon y Gonzales, mestiça, Frida sempre foi apaixonada pela cultura de seu país e adorava tudo que remetesse às tradições mexicanas. Fato que ela sempre fazia questão de demonstrar em sua maneira de se vestir e em seu trabalho ao incluir elementos da cultura popular.
       Em seu diário, publicado em 1995 e traduzido para diversas línguas, e em sua autobiografia publicada em 1953, Frida deixou registradas suas dores e sobretudo suas frustrações pela infidelidade do marido, por quem era extremamente apaixonada, e pela impossibilidade de ter filhos. Toda sua obra, constituída majoritariamente por auto-retratos reflete essa condição.



     Sua primeira tragédia acontece quando ela tinha seis anos e uma poliomelite a deixou de cama por vários dias. Como seqüela, Frida fica com um dos pés atrofiado e uma perna mais fina que a outra. Mas o fato trágico que mudaria sua vida para sempre aconteceu quando ela tinha dezoito anos.
                                                     
     Frida na época estudava medicina na primeira turma feminina da escola Preparatória Nacional. Então, no dia 17 de setembro de 1925, na volta para casa, ela e seu noivo Alejandro Goméz Arias, sofreram um grave acidente de ônibus que a deixou a beira da morte. Transpassada por uma barra de ferro pelo abdômen e sofrendo múltiplas fraturas, inclusive na coluna vertebral Frida levou vários meses para se recuperar. Ao todo foram necessárias 35 cirurgias e mesmo depois da recuperação ela teria complicações por causa do acidente pelo resto de sua vida chegando a relatar: “E a sensação nunca mais me deixou, de que meu corpo carrega em si todas as chagas do mundo.”


                                                 

     Foi durante o período em que esteve se recuperando que surgiu a pintora. Sua mãe colocou um espelho sobre sua cama e um cavalete adaptado para que ela pudesse pintar deitada e Frida fez seu primeiro auto-retrato dedicado a Alejandro que a havia abandonado: “Auto-retrato com vestido de Terciopelo”. Sobre sua obstinação em pintar auto-retratos, 55 ao todo, que representam um terço de toda sua obra ela justificava dizendo: “Pinto a mim mesma porque sou sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor”.
                                                 
       Dois anos depois do acidente Frida leva três de seus quadros a Diego Rivera, um famoso pintor da época que ela conhecera quando freqüentava a Escola Preparatória Nacional em 1922, para que os analisasse. Esse encontro resultou no amor de ambos e na revelação de uma grande artista.
     Em 21 de agosto de 1929 eles se casam, Frida então com 22 anos e Rivera com 43, dando início a um relacionamento dos mais extravagantes da história da arte.
Para saber mais:

       Em 2002 foi lançado o filme “Frida” com a atriz Salma Hayeck no papel da personagem principal e Alfred Molina no papel de diego Rivera. A direção é de Julie Taymor e o filme recebeu dois Oscar por melhor maquiagem e trilha sonora.

 
Fontes
http://fkahlo.com/#
http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT512470-1661,00.html
http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT512361-1661,00.html
http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252007000400024&script=sci_arttext&tlng=pt
http://www.homines.com/arte_xx/crono_frida/index.htm



quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Quem foi Patrícia Rehder Galvão?




Pagu
                 Rita Lee


Mexo, remexo na inquisição
Só quem já morreu na fogueira
Sabe o que é ser carvão
Uh! Uh! Uh! Uh!...

Eu sou pau prá toda obra
Deus dá asas à minha cobra
Hum! Hum! Hum! Hum!
Minha força não é bruta
Não sou freira
Nem sou puta...

Porque nem!
Toda feiticeira é corcunda
Nem!
Toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho
Que muito homem
Nem!
Toda feiticeira é corcunda
Nem!
Toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho
Que muito homem...

Ratatá! Ratatá! Ratatá!
Taratá! Taratá!...

Sou rainha do meu tanque
Sou Pagu indignada no palanque
Hanhan! Ah! Hanran!
Uh! Uh!
Fama de porra louca
Tudo bem!
Minha mãe é Maria Ninguém
Uh! Uh!...

Não sou atriz
Modelo, dançarina
Meu buraco é mais em cima
Porque nem!
Toda feiticeira é corcunda
Nem!
Toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho
Que muito homem...

Nem!
Toda feiticeira é corcunda
Nem!
Toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho
Que muito homem...

QUEM FOI PAGÚ?

        Patrícia Rehder Galvão, ou simplesmente Pagú, nasceu no interior de São Paulo, na cidade de São João da Boa Vista, em 9 de junho de 1910. Logo, aos seus três anos, sua família muda-se para a cidade de São Paulo, em plena expansão. A mutação da cidade reflete-se na jovem Patrícia, que torna-se uma adolescente revolucionária.

      Frequentava a Escola Normal e uniformizada como normalista corria por todo o Centro Velho da capital. Para complementar o “look” de normalista uma carregada maquiagem, grandes brincos de argola e o cigarro em público, que compunham uma jovem à frente de seu tempo, que jogava a sociedade provinciana de São Paulo.

       Aos 12 anos presenciou a Semana de Arte Moderna de 1922 e aos 15 iniciou sua carreira jornalística no “Brás Jornal” com o pseudônimo Patsy.

    Em 1928 Pagú entra em contato com o Movimento Antropofágico, capitaneado por Oswald de Andrade, então casado com a pintora Tarsila do Amaral. O casal apadrinha Pagú, que entra para o circuito mais radical do Movimento Modernista.

      Pagú e Oswald envolvem-se em um romance secreto, esse caso extra-conjugal leva ao fim do casamento entre Oswald e Tarsila, e em 1930 Pagú casa-se com o poeta antropofágico. O novo casal não é aceito pela sociedade conservadora paulistana, mesmo os adeptos do Modernismo. No entanto, após Pagú conhecer Luís Carlos Prestes eles passam a militar no Partido Comunista Brasileiro.

      Pagú insere-se intensamente na militância política, é presa em uma manifestação grevista dos estivadores em Santos e quando é solta passa a morar no Rio de Janeiro, em uma Vila Operária e a trabalhar como lanterninha em um cinema na Cinelândia.

    Em 1933 Pagú lança seu primeiro romance “Parque Industrial”, um romance proletário, com edição financiada por Oswald de Andrade e assinado com o pseudônimo Maria Lobo. O romance é uma narrativa urbana, cujo o tema central é a vida das trabalhadoras das indústrias paulistanas. “Parque Industrial” insere-se nas experiências modernistas, com forte ligação com o romance antropofágico “Memórias Sentimentais de João Miramar” de Oswald de Andrade.

   Ainda em 1933 Pagú parte em viagem por vários países, EUA, Japão e China, onde ela entrevista o psicanalista Freud e em 1934 ela chega a antiga União Soviética, em uma longa viagem pela Transiberiana. A temporada de Pagú em Moscou deixou profundas marcas nela. O socialismo real soviético, onde a população vivia de forma miserável enquanto a elite política do Partido Comunista Soviética vivia confortavelmente..

   Após Moscou, Pagú foi a França onde envolveu-se em manifestações dos partidos de esquerda, presa é deportada para o Brasil em 1035.

.

      Chegando à seu país logo é presa acusada de envolvimento na Intentona Comunista, foge da prisão, mas logo é presa novamente. Fica presa, então, por quase cinco anos e é solta em 1940.

     A década de 40, do século passado, marca uma Pagú que afasta-se da militância política e do Partido Comunista. Ela trabalha intensamente em inúmerosjornais e revistas como cronista e contista. Em 1945 publica seu segundo livro, “A Famosa Revista”, em parceria com seu novo companheiro conjugal Geraldo Ferraz. Nessa obra ela faz uma severa crítica ao Partido Comunista. Em 1950 ela candidata-se à Assembléia Legislativa Paulista, não é eleita, mas publica o panfleto “Verdade e Liberdade” com comentários de seu tempo na prisão, de sua viagem à Moscou, sua desilução com o Partido Comunista e o porque de sua candidatura.

       Em 1952 Pagú passa a frequentar a Escola de Arte Dramática de São Paulo (EAD). Alinha-se ao Teatro Experimental de Vanguarda. Ao mesmo tempo contribuiu com inúmeros periódicos de Santos, e por lá participa intensamente da vida cultural em grupos de Teatro Amador.

      No final da década já está muito doente, e em 1962 é operada em Paris. A operação não é bem sucedida e Pagú volta ao Brasil, onde morre em 12 de dezembro na cidade de Santos.

                                                                          Nothing,

                                                                (último poema de Pagú.)
“Nada nada nada
Nada mais do que nada
Porque vocês querem que exista apenas o nada
Pois existe o só nada
Um pára-brisa partido uma perna quebrada
O nada
Fisionomias massacradas
Tipóias em meus amigos
Portas arrombadas
Abertas para o nada
Um choro de criança
Uma lágrima de mulher à-toa
Que quer dizer nada
Um quarto meio escuro
Com um abajur quebrado
Meninas que dançavam
Que conversavam
Nada
Um copo de conhaque
Um teatro
Um precipício
Talvez o precipício queira dizer nada
Uma carteirinha de travel’s check
Uma partida for two nada
Trouxeram-me camélias brancas e vermelhas
Uma linda criança sorriu-me quando eu a abraçava
Um cão rosnava na minha estrada
Um papagaio falava coisas tão engraçadas
Pastorinhas entraram em meu caminho
Num samba morenamente cadenciado
Abri o meu abraço aos amigos de sempre
Poetas compareceram
Alguns escritores
Gente de teatro
Birutas no aeroporto
E nada.”


Afinal o que é conto?





Definição


A palavra conto quer dizer:

1. Narração falada ou escrita de um acontecimento.

2. Narração de uma história ou historieta imaginadas.

3. Fábula.

Os estudiosos da teoria do conto se dividem em duas correntes: A dos que aceitam definições e a dos que não aceitam. Mas mesmo os que as aceitam concordam que definir conto não é tarefa fácil. O escritor e contista Júlio Cortázar afirma que o conto é "um gênero de difícil definição, esquivo nos seus múltiplos e antagônicos aspectos".

No estudo “Teoria do conto”, Nádia Battella Gotlib, "cola" as impressões de diversos estudiosos do conto e chega à seguinte equação: O segredo do conto é promover o seqüestro do leitor, prendendo-o num efeito que lhe permite a visão em conjunto da obra, desde que todos os elementos do conto são incorporados tendo em vista a construção deste efeito (Poe). Neste seqüestro temporário existe uma força de tensão num sistema de relações entre elementos do conto, em que cada detalhe é significativo (Cortázar).

Características do conto:

1. A brevidade

Considerando que o conto é o gênero de menor tamanho, a questão da brevidade é fundamental na sua construção. Nas palavras de Anton Tcheckov "é preferível não dizer o suficiente do que dizer demais". Portanto, é importante limitar o número de personagens e episódios, eleger os detalhes primordiais e evitar explicações em demasia.

2. Intensidade

Outro aspecto fundamental, além da brevidade é a intensidade. Há duas metáforas criativas e precisas, criadas por Júlio Cortázar, que definem bem a questão:

O conto está para a fotografia como o romance está para o cinema.
No conto o autor vence o leitor por nocaute, enquanto no romance a luta é vencida por pontos.
3. Unidade de Efeito:

Uma narrativa só é suficientemente intensa a ponto de causar impacto no leitor se tiver unidade de efeito. Para alcançar esta unidade é preciso que o autor tenha em mente, durante a construção do conto, que efeito deseja causar no leitor. A concisão tem importância fundamental para se conseguir essa unidade. 

4. Significação: Como na fotografia o conto necessita selecionar o significativo. Uma narrativa só se torna significativa quando transcende a história que conta abrindo-se para algo maior. 

5. Tensão: A tensão é uma forma diferente de imprimir intensidade à narrativa. Em vez de os fatos se desenrolarem de forma abrupta, o autor vai desvendando aos poucos o que conta, usa a técnica do suspense, adia a resolução da ação e instiga a curiosidade do leitor. 

6. Temática 

Pode se dizer que a temática do conto é praticamente ilimitada. Quase tudo pode ser objeto para um conto. Mas em princípio a idéia de conto está ligada ao acontecimento. É preciso que algo aconteça, mesmo que o acontecimento seja o nada acontecer. 

· Momento especial: É importante que exista algo especial na representação daquele recorte da vida que gera o conto, o flagrante de um determinado instante que de alguma forma interesse ao leitor. Seja pela novidade, pela surpresa, pelo inusitado, pelo cômico ou pelo trágico de uma situação. 

· O conto de acontecimento: As formas originais e tradicionais de narrativa estão ligadas ao acontecimento, ao fato. 

· O conto de atmosfera: As formas modernas de narrativa instituíram a investigação psicológica das personagens e não apenas acontecimentos pontuais. 

· Combinação: Aliar os recursos tradicionais com aqueles que vão surgindo é uma boa forma de combinar tradição e modernidade. A narrativa ganha qualidade quando mistura os acontecimentos à investigação psicológica das personagens que os vivenciam ou presenciam. 

7. Desfecho 

Todo o enredo deve ser elaborado para o desfecho, cada palavra deve confluir para o desenlace. Só com o desfecho sempre à vista é possível conferir a um enredo o ar de conseqüência e causalidade. Deve causar a catarse no leitor.


Referências

BRANDÃO. Jackson de Souza. Teoria do conto. Disponível em: <http://www.jackbran.pro.br/redacao/teoria_do_conto.htm> Data de acesso: 19/09/2012

Gotlib, Nádia BattellaGotlib. Teoria do Conto, São Paulo, Ática, 1998

Silva, Deonísio. Os melhores contos de Ignácio de Loyola Brandão, Editora Global, 2001


COMO ELABORAR UM CONTO?

Podemos dizer que o conto é uma estrutura fixa que apresenta quatro partes essenciais :

1ª Situação inicial: onde se apresenta os personagens; se expõe o assunto, o lugar e os primeiros acontecimentos;

2ª Complicação: Onde se expõe o problema, que vai ser apresentado gradativamente;

3ª Clímax: momento de maior tensão, quando se chega ao máximo do suspense;

4ª Desfecho: resolução ou tentativa de resolução do conflito.

Devemos observar que...

• Tempo: Constitui o pano de fundo para o enredo . A época da história nem sempre coincide com o tempo real em que foi publicada ou escrita.

• Espaço: É o lugar onde se passa a ação de uma narrativa .O termo espaço só dá conta do lugar físico onde ocorrem os fatos da história.

• Ambiente: É o espaço carregado de características socioeconômicas, morais, psicológicas, em que vivem os personagens.

• Narrador: É o elemento estruturador da história, pode estar em terceira pessoa, que se divide em onisciente e onipresente . O primeiro sabe tudo da história e o segundo está presente em todos os lugares da narrativa. Outro tipo de narrador é o primeira pessoa, a qual participa diretamente do enredo como personagem.





Resumos de alguns contos de Machado de Assis.

A Cartomante

Narra a história de Camilo, Vilela e Rita. Os dois primeiros eram melhores amigos; a segunda era esposa do segundo e amante do primeiro. Quando Camilo começa receber denúncias anônimas, diminui a freqüência das visitas ao amigo. Preocupada, Rita visita uma cartomante, fato que faz Camilo rir. Quando Vilela chama Camilo a sua casa ele vai preocupado, e passa antes na cartomante pensando que não tem nada a perder. Ela lhe assegura que nada vai dar errado e ele chega despreocupado a casa de Vilela, onde encontra Rita morta. Vilela então o mata. 

A Causa Secreta

Fala de dois homens que, após um salvar a vida do outro e passar-se algum tempo, tornam-se sócios. Mas pouco a pouco um deles vai demonstrando tendências sádicas, torturando animais, fato que atordoa a esposa.Quando ela morre, Fortunato, o sádico, presencia o amigo beijar a testa da mulher e derreter-se em choro, saboreando o momento de dor do amigo que lhe traía.

A Igreja do Diabo

É uma nova idéia do diabo: fundar uma Igreja e organizar seu rebanho, tal qual Deus. Após comunicar Deus de seu futuro ato, vai à Terra e funda com muito sucesso uma Igreja que idolatra os defeitos humanos. Mas aos poucos os homens vão secretamente exercitando virtudes, Furioso, o Diabo vai falar com Deus, que lhe aponta que aquilo faz parte da eterna contradição humana. Anedota Pecuniária É uma pequena crítica a ganância. Nela um homem "vende" suas sobrinhas aos homens que as amam por causa de sua fascinação com o dinheiro.

A Sereníssima República

É uma crítica ao processo eleitoral, feito como um discurso de um cônego que afirma ter achado uma espécie de aranha que fala e criado uma sociedade delas, uma república chamada Sereníssima República. Ele escolhe como sistema de eleição um baseado no da República de Veneza, onde retirava-se bolas de um saco com o nome dos eleitos. Este sistema vai sendo fraudado pelas aranhas, corrigindo-se, adaptando-se e variando-se diversas vezes e de diversos modos, eternamente corrupto.

Capítulo dos Chapéus

É um conto onde aparece a frivolidade e ostentação da época de Machado. Mariana, após pedir ao marido que troque o seu simples chapéu, testemunha a sociedade (na famosa rua do Ouvidor) e acaba pedindo que ele permaneça com seu chapéu. D. Paula Conta sobre um casal que realiza uma separação temporária por ciúmes, com fundos, do marido. O caso é mediado pela tia da esposa, Dona Paula, que quando descobre quem é o outro, fica abalada. É o filho do homem com quem teve caso análogo, fato que deixa seus sentimentos bem abalados em relação ao caso.. 

O Espelho

Conta sobre um homem falando de sua opinião sobre a alma humana num grupo de amigos que realizam discussões metafísicas. Ele descreve uma situação de sua juventude onde, após ter sido engrandecido pelo recém-conquistado posto de alferes, encontra-se sozinho. Solitário, passa a ter medo até a que um dia veste-se com seu uniforme de alferes e encara o espelho, encontrando assim o outro lado de sua alma (sua opinião é que temos duas almas, uma externa que nos vigia e a nossa que vigia o exterior). Isso retira-o da solidão. Portanto, este conto envidencia o conflito entre a essência (a alma interior) e a aparência (alma exterior). 
Teoria do Medalhão

É um pai aconselhando um filho no dia de seus 21 anos.Ele lhe diz que um futuro lhe espera, que pode ter várias carreiras diferentes, mas que devia ter uma de resguardo, preferencialmente a de medalhão. Para isto devia ter pouquíssimo conhecimento, originalidade, ironia, gosto ou qualquer idéia própria. E nisso disserta sobre a necessidade do filho de sempre manter-se neutro, usar e abusar de palavras sem sentido, conhecer pouco, ter vocabulário limitado, etc. Ao final, é uma bela ironia machadiana sobre como encontram-se os valores da sociedade de sua época

O Enfermeiro

Conta sobre um homem que, a beira da morte, conta um caso de seu passado. Ele foi em 1860 ser enfermeiro de um velho e mau coronel, que acaba esganando alguns dias antes de partir por não mais o suportar. Quando abre-se o testamento ele é declarado herdeiro universal e distribui lentamente o dinheiro em esmolas. Enquanto isto se passa, vai lentamente se convencendo de sua inocência, apoiado pela sociedade que odiava o velho e suas ações que considera redentoras.

Pai Contra Mãe

Cândido Neves, caçador de escravos fujões. Não o é por opção, apenas o é porque não agüenta qualquer outro emprego. Casa e passa a adquirir dívidas, com clientela cada vez menor; quando engravida a mulher, as dívidas aumentam. Depois de despejados vão morar em um quarto emprestado e o menino nasce. Após ceder às pressões da tia da esposa, Candinho vai por a criança na Roda dos enjeitados. Mas no caminho captura uma escrava, recebendo uma gorda recompensa, mantendo assim a criança. Mas a escrava estava grávida, e provavelmente abortou com os castigos recebidos, ficando a vida do filho de Candinho em troca da de outra 

Missa do Galo

Fala de uma singular conversa entre uma senhora de 30 anos e um jovem 17, que tinha que manter-se acordado para acordar o amigo para irem à missa do galo. Eles conversam, ele apieda-se dela (o marido traía e ela resignava-se), admira-a e distrai-se. Por fim o amigo lhe chama, já que já havia passado da meia-noite e ele nunca mais tem outra conversa profunda com ela.

Referência

Disponível em: < http://www.resumosdelivros.com.br/m/machado-de-assis/contos/>
Data de acesso: 19/09/2012









quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Corpo Vivo de Adonias Filho


Por: Valéria Queiroz Menezes

Cajango é o sobrevivente ao ataque dos jagunços que dizimaram sua família. O principal objetivo dele era a posse da terra produtora de cacau. É levado pelo padrinho Abílio para ser criado pelo irmão do seu pai o índio Inuri na selva do Camacã, influenciado pelo tio, dedica-se à luta por vingança. Sob suas ordens forma-se um grupo de homens que vivem espalhando o medo pela região. No decorrer da trama, acontece a aparição de Hebe, que com a morte dos filhos, profetiza o fim do bando. Cajango conhece Malva e se apaixona, a profecia de Hebe se concretiza. Com a vinda dessa mulher para o grupo, seu tio a rejeita, porque percebe que o programa de vingança está perdido, o desafia para uma luta e é morto, iniciando a dissolução do grupo. Todos acabam sendo mortos, exceto Cajango, Malva e João Caio, os dois primeiros fogem para serra onde não serão encontrados, o terceiro é reconhecido e obrigado a revelar o paradeiro do casal. Diante da imensidão da serra, os homens desistem de persegui-los. Ao final, João Caio é libertado e Cajango e Malva vivem na serra isolados.

ADONIAS FILHO. Corpo vivo. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1962.   



As velhas de Adonias Filho

Por: Valéria Queiroz Menezes
           
         A obra “As Velhas”, de Adonias Filho tem como cenário o sul da Bahia. O enredo gira em torno de quatro matriarcas que após viverem sobre a proteção dos seus companheiros conseguem ter representação frente as suas famílias. A trama é dividida em quatro partes cada uma descreve uma velha: Tari Januária; Zefa Cinco; Negra Zonga e Lina de Todos. Os destinos dessas mulheres acabam por se entrecruzarem da seguinte forma: Tari Januária encarrega seu filho de trazer os ossos de seu marido Pedro Cobra, assassinado por Zefa Cinco, como ela supostamente sabia onde estavam os ossos do marido de Tari, propõe um acordo a Toni Beré, filho de Tari: mostraria onde estavam enterrados em troca ele deveria achar sua filha desaparecida. No percurso, Beré conhece a velha Zonga que dá indícios do paradeiro da moça, já em Buerarema, ele conhece a quarta velha, Lina de Todos, descobre que Asa, filha de Zefa, já havia morrido e que havia tido uma filha que se encontrava prisioneira, libertam a moça e a entregam a mãe que havia mentido sobre o paradeiro do corpo de seu pai. Ele retorna a sua casa e descobre o verdadeiro motivo da busca: a sua mãe queria fazer com os ossos quatro cabos para facas que daria a seus quatro filhos. Na luta contra a fatalidade, seus personagens vivem e morrem numa região, ainda dominada pela natureza feroz e marcada pela violência da disputa de terras.

FILHO, A. As Velhas. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 1975.


A Metaficção Historiográfica em La Fiesta del Chivo, de Mário Vargas Llosa



Por: Valéria Queiroz Menezes

Trabalho apresentado no XIV Encontro Baiano de Estudante de Letras EBEL - Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB - 2010

A novela da época moderna coincide historicamente com a ascensão da burguesia, isso permitiu uma ampliação dos temas tratados por essas narrações como, por exemplo: a psicologia, os conflitos sociais e políticos. Segundo Bela Josef,(1993, p.15), a novela se transformou, ao recorrer dos últimos séculos, na mais complexa forma de expressão literária dos tempos modernos, apresenta a narração de eventos, testemunho imediato, análise de sentimentos, registros de vicissitudes sociais ou políticas, serviu de valores ideológicos, refletiu aspectos da vida social como da política e também expressou angústias e costumes coletivos.
            O novo romance procura identidade, não somente através da denúncia social, mas também através da realidade presente na arte. Há uma nova exigência do fazer artístico e a arte contemporânea procura novos rumos transformando-se em um instrumento de investigação. A noção de tempo deixa de ser cronológica por não corresponder a nova concepção de tempo, o psicológico, afirma Bella Josef (1993, p.23) “[...] o espaço destrói o tempo [...] destrói o espaço. Estabelece-se, assim, nova concepção de temporalidade”.
            O novo romance hispano-americano nasceu do novo contexto em que o escritor tem consciência de sua temporalidade ao focalizar as crises de uma cultura institucional desvinculada do homem. “A linguagem literária vai criar uma significação a partir de uma ‘ausência’ estabelecendo-se como universo autônomo, em relação indireta com o real. Por isso, a obra vai instaurar seu próprio sentido” (Josef, 1993, p.37)
            O romance hispano-americano adquiriu, sem esquecer-se dos modelos europeus, características próprias. A dupla função mimética da realidade hispano-americana deu lugar a uma construçãorenovadora da realidade e da arte, em que se destaca: Miguel Asturias, Carlos Fuentes, Juan Rulfo, Julio Cortázar, Alejo Carpentier, Mario Vargas Lllosa, Gabriel García Márquez, Manuel Puin, entre outros. Esses escritores, embora pertencentes a países diversos e obras que possui disparidades tem um ponto em comum em suas obras: as problemáticas do continente hispano-americano.
            Linda Hutcheon, em sua obra, Poética do Pós Modernismo, estabelece como “metaficção historiográfica” as obras pós-modernas que “ficcionam” e reinterpretam um acontecimento histórico problematizando-o. Assim permite uma nova construção da verdade. Segundo a autora, o que vai a distinguir-se como característica da metaficção, é a relação que possuem os personagens com o eixo entre o presente e o passado. Nesse sentido, conhecem e discutem esse passado no momento presente em que vivem. O fato histórico é repensado de maneira crítica. Hutcheon teoriza acerca da novela histórica a partir dos pressupostos de Lukács, atualizando seus conceitos sobre esse gênero. Quando se narra uma metaficção historiográfica, afirma a autora, há uma contaminação recíproca entre elementos de ambos os campos do conhecimento, porque se questiona a neutralidade, a impessoalidade e a transparência dos fatos que são próprios da historiografia. Nesse gênero, o censo comum é desconsiderado, tanto o fato histórico como a ficção estão relacionados em um discurso cujos sistemas de significação têm como objetivo a verdade.
            A autora chama a atenção para a necessidade de um estudo completo e com profundidade sobre as questões que cercam a natureza da identidade e da subjetividade de obra, que consiste no referencial de representação; a natureza intertextual do passado e a influência ideológica embutida no ato de escrever a cerca da historia. A teoria da literatura, a respeito das manifestações historiográficas, marca as formas de narração com as seguintes características: vários pontos de vista e a presença do narrador onipotente que revela tanto os sentidos do texto quanto o fato o contexto com o leitor. Assim, a novela pós-moderna explora as dicotomias: ficção-história, presente-passado e particular-geral. Também representa o passado tanto na ficção quanto na história revelando-se o presente de forma pouco concludente.No entanto, a presença de personagens reais nesta obra não garante a veracidade, embora o autor faça uma rigorosa investigação.
            La Fiesta del Chivo foi publicada em 2000, se trata de uma narrativa histórica onde Mario Vargas Llosa reconstrói, através da ficção, o período da ditadura de Rafael Leónidas Trujillo na República Dominicana, compreendido entre 1930 a 1961. A novela apresenta histórias não simultâneas embora relacionadas entre si. A história da protagonista Urânia dá início e término à obra, no mesmo espaço físico, o Hotel Jaguara. O retorno dessa personagem, a República Dominicana, vai revelar ao leitor o motivo de sua fuga para os Estados Unidos. É por meio de sua memória que Urânia retoma um período especifico de Santo Domingo, o que se confunde com seus própriospensamentos. “No recuerda que, cuando era niña y Santo Domingo se llamaba Ciudad Trujillo” (2000, p.15). Concomitantemente, outros relados vão sendo costurados por outros personagens, que descrevem seu envolvimento com o ditador. É possível perceber  os saltos temporais para analisar os fatos no presente de forma crítica, técnica utilizada por autores posmodernos na construção do discurso literário.
Dessa maneira, a narração de Urânia se alterna entre o presente e o passado como podemos observar nos fragmentos abaixo. O mesmo acontece com a narração do ditador em seu último dia de vida.

Es un olor cálido, que toca alguna fibra íntima de su memoria y la devuelve a su infancia, a las trinitarias multicolores colgadas de trechos y balcones, a esta avenida Máximo Gómez (Losa, 2000, p. 21).

Cerró los ojos, preguntandose si su memoria Le permitiría recordar con exactitud aquella cita. Sí ahí la tenia completa, venida a él desde aquella conmemoración, el veintinueve aniversario de su primera elección (Llosa, 2000, p. 246)
           
Durante a trama são reveladas as atrocidades cometidas por esse ditador e sua relação com Urânia, ocorrendo à mescla de personagens ficcionais e históricos. O escritor tem diante de si um novo conceito de realidade, cria um personagem complexo e o dispõe no centro da historia.
Em La Fiesta del Chivo, uma verdade não podia dar conta das atitudes dos conspiradores, por exemplo, pois os mesmos eram trujilistas ferrenhos, que entregavam sua vida e sua dignidade a esse ditador considerado como o salvador da pátria.:
Trujillo era magnánimo, cierto. Podía ser cruel, cuando el país lo exigía. Pero, también, generoso, magnifico como Petronio de Quo Vadis? Al que siempre citaba […] Trujillo no sólo había sido Jefe, el estadista, el fundador de República, sino un modelo humano, un padre. (Llosa, 2000, p. 307)

A figura do ditador sempre foi odiada ou amada, o que marca sua vida é a solidão. O rastro de infelicidade é característica da personalidade dos ditadores, definido, desde a época de Platão, como motivação para uma conduta de excesso. Vargas Llosa representa a solidão do ditador Leónidas Trujillo através dos seus sonhos repletos de maus presságios, onde se sentia prisioneiroem uma teia de aranha, ou devorado por um bicho peludo e cheio de olhos.

Despierto, paralizado por una sensación de catástrofe. Inmóvil, pestañeaba en la oscuridad, prisionero en una telaraña, a punto de ser devorado por un bicho peludo lleno de ojos.  (Llosa 2000, p. 27).

A maneira como Urânia trata seu pai, de início, pode parecer cruel, pois ela vai reviver fatos de seu próprio passado, da sua cidade e de seu povo, mas é nos capítulos que se seguem que o leitor vai tomar conhecimento de sua tragédia pessoal e também do perfil do ditador na voz de cada um dos narradores, que cansados das atrocidades cometidas pelo ditador subvertem a “ordem” e tramam sua morte. O romance se divide em quatro capítulos não intitulados, cada um narrando o motivo que levou os integrantes imediatos da conspiração a tramar a morte de Trujillo: o turco Salvador Estrella Sadhalá, AntonioImbert, Antonio de La Maza e Amado García Guerrero.
Como a América Hispânica é palco de regimes déspotas, surgem no contexto literário obras que refletem o ambiente de crueldade, para apresentar o mito do poder. Em uma entrevista com Sanjuana Martinez em 02/05/2001, Llosa declarou que, falando desse ditador estará falando de todos os ditadores latino-americanos e que alguns estão mortos outros desgraçadamente ainda vivem. Segundo Bella Josef (1993, p. 41) o contexto cultural hispano-americano que configura a novela mostra ao lado de mitos e arquétipos a psique de um continente apreendido e conservado na ficcionalidade.
Llosa descreve o “Generalíssimo” como um tirano sanguinário e convencido, que se sente encarregado da sublime missão de proteger sua pátria como um pai ou como um deus. O caráter machista ascende a níveis psicológicos na medida em que, para obter um aspecto de dignidade e importância, os pais, principalmente os mais humildes, entregam-no suas filhas ainda adolescentes para serem suas amantes. Na figura do tirano há certa obsessão pela mãe e uma carência da figura paterna. O Patriarca impõe uma santificação da sua mãe, a Bedición Alvorada, que era tema constante de homenagens na rede escolar, mas provoca a morte de sua esposa e de seu filho.
            Em cada capítulo um personagem é posto em destaque pelo autor. Com isso o leitor vai desenhando o arquétipo do ditador. Cada voz exprime uma visão sua, mas a voz feminina de Urânia Cabral, filha do senador do governo, que vai conduzir a narrativa, que se configura impregnada de suas recordações que se mesclam com o presente. Esta se estende por três décadas: de 1931; ascensão de Trujillo até sua morte em 1961, quando governou a República Dominica de maneira absoluta.
A obra literária em análise faz um regate histórico, pois apresenta pessoas que representavam o poder da época, como o chefe do temido SIM, Jonnny Abbes, conhecido por sua crueldade e o pai de Urânia Augustín Cabral, senador e ministro do governo. Trás também como se configura a família de Trujillo, os filhos Ramfis e Radhamés.
            Ao final da narrativa, se descobre o motivo do retorno de Urânia, a prestação de contas com seu pai que a entregou, ainda criança, como objeto sexual do ditador dominicano, com o objetivo de recuperar seu prestigio com este.
            No processo de reconstrução da tirania trujilista, Llosa faz uso de diferentes narrativas que utiliza como ponto referencial a morte do ditador, como forma de propiciar ao leitor uma reflexão critica dos fatos, através da historia dos homens que se revoltaram contra o sistema opressor. A obra possui dois núcleos narrativos: um que resgata os fatos históricos outroa ficção.
            O bode, apelido do “Generalissimo”, traduz de forma simbólica e analógica a personalidade desse ditador. O bode possui uma representação diversa em diferentes culturas como, por exemplo: No Egito, as mulheres faziam preces para ele quando queriam conceber um filho; na Itália, representa as profundidades e a morte, na religião cristã, é associado à luxúria e ao demônio, no contexto narrativo da obra estudada, a festa do bode, se refere à grande “comemoração” do poder, quando através das relações, o ditador vai disseminando o mal por toda uma nação.
            Urânia é um personagem fictício de La Fiesta del Chivo, é também a vítima do ditador, do bode, e a voz feminina que, na narração, representa as mulheres que foram oprimidas, abusadas, silenciadas durante a terrível ditadura de Leónidas Trujillo na Republica Dominicana. As ditaduras latino-americanas tiveram um caráter machista até porque o machismo é um fenômeno típico do latino. Um regime que possui um poder absoluto como as ditaduras convertem as mulheres em meros objetos, em seres vulneráveis. O sexo para Trujillo representava um valor cultivado pela sociedade machista e por isso simbolizava seu poderio. Ele dormia com as mulheres de seus colaboradores para reafirmar sua autoridade sobre eles.
            Urânia, na mitologia grega, representa o céu e a luz, o autor faz uma vinculação arquetípica desde as primeiras linhas da obra, como podemos observar no seguinte fragmento: “Urania. No Le habían hecho un favor a sus padres; su nombre daba la Idea de un planeta; de un mineral (Llosa,2000, p. 11)”
            Não é de se estranhar que Vargas Llosa, se utilizasse tal nome como representação simbólica de uma mulher, que ainda tivesse sofrido os abusos da ditadura, volta a seu país como uma pessoa bem sucedida de fato. Em seu retorno, se dispõe a acertar as contas com seu passado, esse intimamente relacionado com a tirania do ditador Trujillo.
            Rafael Leonidas Trujillo Molina possuía um apelido de “O Bode” por seu incontrolável apetite sexual. Ele não conhecia limites, possuía sexualmente as mulheres e filhas de seus colaboradores, muitas vezes com a permissão destes, como foi o caso de Augutín Cabral, que para ser aceito uma vez mais entre os favoritos do tirano, lhe oferece sua única filha, Urânia, seu grande desejo, incentivado por Manuel Alfonso como podemos comprovar em um trecho da obra.
¿Saben una cosa Cerebrito? Yo no hubiera vacilado ni un segundo. No para reconquistar su confianza, no para mostrarle que soy capaz de cualquier sacrifico por él. Simplemente, porque nada me daría más satisfacción, más felicidad, que el Jefe hiciera gozar a una hija mía y gozara con ella. (Llosa, p.376)
            Assim, foi conduzido o destino da protagonista, que em meio a vozes masculinas setorna a “luz” que vai clarear os excessos e a violência sofrida por sua nação tão jovem quanto ela.
            A festa do bode é uma obra literária que entrecruza ficção, história y política para narrar acontecimentos, segundo palavras do autor, “tan incríbles que superan cualquier ficcion”. Uma historia que, ainda possa parecer distante, é um retrato de uma sociedade em que o poder dos fortes sobrepõe aos mais fracos e se torna condição muito presente em nossa memória coletiva.




REFERENCIAS

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BELLA, Josef. Mario Vargas Llosa e a redefinição da realidade. In: O Espaço Reconquistado uma releitura – Linguagem e criação no romance hispano-americano contemporâneo. 2ª Ed. Paz e Terra, São Paulo: 1993. P. 109-122.

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